22 de maio de 2007

Igreja Universal do Broto Germinado









Coisa de sete anos atrás, uma amiga da época do colégio ressurgiu. Sempre tremo diante de reencontros, que nunca são como nos filmes de reencontros. E se o amigo de antanho estiver vergonhosamente gordo? E se voltar crente? O que fazer diante de um pedido de empréstimo? Como prolongar o assunto passada a sessão nostalgia? Como suportar a visão palpável da passagem do tempo?

Pois minha amiga voltou crente. Com uma crença inabalável nos poderes dos brotos germinados. Isso foi bem antes do suco de luz virar o leite de soja da vez. De olhinhos brilhantes, ela me disse que agora só mastigava biochip. Ali, a seco, explicou que o biochip era como uma unidade biológica que retinha energia da natureza. E que o suco de luz tinha mudado a sua vida. Logo imaginei a cena: ela, de copo vazio, virando num gole uma energia invisível, insípida e inodora. Paniquei. Nunca mais nos vimos.

Um dia veio o déjà vu. Numa entrevista, Elba Ramalho cantou para mim as maravilhas de Ana Branco, a papisa do suco de luz. Professora da PUC, Ana era o último grito natureba por conta de uma aula, ministrada no departamento de Artes (?), chamada Convivências com o biochip. De novo a luz, de novo o chip. E daquela vez o arauto era Elba, a cantora que alega já ter encontrado extraterrestres, que nela implantaram um... bem, chip.

Do medo nasceu a curiosidade. Resolvi encarnar o Padre Quevedo e descobrir o que havia de ciência por trás de tais assombrações dietéticas. Descobri que o tal suco de luz era coisa simples: hortaliças e grãos germinados passados numa centrífuga. Germinados? Sim, são sementes crescidas, como os manjado brotos de alfafa (ou o feijãozinho no algodão da época da escola), só que numa fase tenra da infância. Com base em pesquisas científicas, os crudívoros juram que as pequenas unidades são como bombas de nutrientes.

Alto lá: crudívoros? Pois é, por trás de toda convicção inabalável há uma seita com nome de batismo. A do crudivorismo acredita nos vegetais crus. Nada pode ser aquecido acima dos 38 graus, com o perigo de preciosas enzimas - proteínas, meu caro, proteínas - se perderem PARA SEMPRE. Sente a tragédia. Naquele reencontro de anos atrás, dividi mesa com uma crudívora sem nem perceber.

Acredito nas boas intenções dos vegetarianos, mas tenho uma difícil relação com seu endomarketing. Biochip, suco de luz, crudivorismo, nada disso parece gostoso. Embora possa até ser. Num recente episódio do Alternativa: Saúde, Patrycia Travassos foi à Califórnia encontrar vegans, crudívoros, ovo-lactos, macrôs e outros bichos. Todos de cabelos maltratados, dentes escuros, roupas puídas e sorrisos ligeiramente maníacos. Todos feios, com a perdão da clodovice. Precisa?

Graças a Deus, não. Assim como há quem acredite na expiação diária em um prato de arroz integral empapado e sem tempero, existe quem acredite no prazer. Afinal, do que vale viver cem anos sem humor e comida boa? Eu, por exemplo, sou da seita do pato confit. Pense comigo. Será que o pato, em sua limitada sapiência, não prefere acabar numa receita do Claude Troisgros a uma morte sem brilho numa lagoa qualquer? Ele há de sentir-se lisonjeado, coisa que se pudesse diria. A menos que tenha planos de ser sociólogo.

Por isso acho que todo vegetarianismo deveria vir com slogans assim: "vegetarianos fazem mais sexo", "coma vagem e viva mais" e "cure sua ressaca com rúcula". E deveria acompanhar pesquisas em vez da terminologia age of aquarius. Se ainda tiver a densidade saborosa do hambúrguer de tofu e a crocância dos crackers de linhaça do Universo Orgânico, no Leblon, voilà, ganharam um adepto.

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