1 de março de 2007



Em revista: Le Blé Noir

Na minha primeira incursão ao Le Blé Noir, pensei ter encontrado alguma técnica avançada de marketing. Algo parecido com a estratégia do Studio 54, lendária boate novaiorquina que já na noite de inauguração deixou um monte de gente do lado de fora para atiçar a curiosidade sobre o que rolava lá dentro.

Meu début foi há alguns anos. Eu e dois amigos chegamos à porta da creperia de Copacabana enquanto um outro seguia para nos encontrar. Topamos com uma pequena fila e uma senhora com cara de poucos amigos. Perguntou quantos éramos.

- Quatro, um ainda está a caminho.

- Então não pode.

- Como assim não pode?

- Só deixamos entrar grupos completos. Quando ele chegar vocês podem entrar na fila.

E sumiu na penumbra do salão. Eu, que nunca tinha visto daquilo, imaginei que ela voltaria com uma palmatória. Mas a hostess com estágio na S.S. retornou ao posto sem nos dirigir palavra. Usei um dos meus mandamentos irrevogáveis - o que diz "não piso onde não sou bem recebido" - para jurar ódio eterno ao restaurantezinho (com desprezo, por favor) francês.

Uma amiga, também barrada com igual grosseria, me deu razão. Ela sustenta que, enquanto figuras como Claude Troisgros e Olivier Cozan representam o melhor da personalidade dos franceses, ao Le Blé Noir caberia o pior: a arrogância e a altivez. Se de um lado alguns chefs acariocam-se, outros se apegam a idiossincrasias incompatíveis com a cidade. Exigir que todos cheguem juntos à casa, sem permitir um mísero retardatário, seria como pedir informações em mandarim nas ruas da Venezuela.

Prefiro achar que é marketing. E dos bons. Porque essa curiosidade sobre o que se passa a portas fechadas - ainda mais naquela penumbra misteriosa - me levou de volta ontem. Ou então foi saudade do meu amigo demi-francês Patrick, habitué da creperia, que anda pela Europa. Mais uma vez diante daquela portinha, tremi.

- Então vocês não têm reserva - constatou a recepcionista, que já era outra, em tom de suspeita.

Mesmo sem aviso prévio passamos pela inspetora. Ufa! Assim começou uma noite de delícias.

A casa é pequena, com mesas igualmente reduzidas. Das velas espalhadas pelo salão aos toques rústicos da decoração - mosaicos florais nas mesas e desenhos coloridos em quadrinhos nas paredes - tudo favorece a intimidade. O público reflete esse clima: casais de namorados, famílias sem crianças e amigos de anos.

A especialidade da cozinha comandada por Alain Caro são os crepes da Bretanha, feitos com trigo-mourisco (ou sarraceno), o tal blé noir também muito apreciado pelos russos. No menu, são várias opções de recheios, algumas inventivas como o de figo caramelizado no vinho do Porto e baunilha, queijo de cabra, presunto cru e farofa de nozes e outras mais tradicionais.

Escolhi uma combinação mais careta, a de champignons de Paris com brique (queijo de cabra mais suave que variedades como o feta e o pecorino). O prato chegou à mesa exalando um aroma poderoso, de nozes e queijo mofado, escoltado por uma salada com molho de mostarda Dijon. Na primeira garfada, o silêncio. Que mérrevilha!

Crepe que é crepe não tem massa molenga, de panqueca. Chez Michou? Nem pensar. Deve ter textura crocante como uma lasca queimadinha que gruda na panela. No Blé Noir é assim. Sem exagero de massa e com um sabor campesino, de comida da terra. Com uma cidra ao lado - legítima, não o refrigerante Cereser - o jantar correu macio. Ainda teve um crepe de pêras com chocolate pra arrematar.

Os preços não são muito convidativos. Vão da casa dos 30 reais a uns 40 e tantos. No mundo ideal, seriam mais acessíveis, afinal, não se trata de comida de gala. Mas, pela qualidade dos ingredientes, estão perdoados.

Foi assim que acabei me rendendo ao colonizador europeu. Tomara que no futuro eu consiga engolir de novo meu orgulho antes de mastigar aquelas maravilhas.

3 comentários:

dmenchen disse...

Que bom que tu venceu a resistencia. Ja ta convidado para voltar la comigo e com o Patrick!
PS: Adorei o blog!

Fabio disse...

Que bom que você venceu todos os obstáculos e virar cliente, por favor na próxima vez que nos visitar se identifique para que possamos brindar juntos. Alain Caro.

Fabio disse...

Que bom que você venceu todos os obstáculos e virar cliente, por favor na próxima vez que nos visitar se identifique para que possamos brindar juntos. Alain Caro.