16 de março de 2007


Em revista: A Polonesa

Faça o teste: leve seu amigo foodie para passar umas horinhas na Polonesa, em Copacabana. O primeiro susto virá logo na entrada. Ele vai pensar que saiu da máquina do tempo direto para uma taberna ancestral, com garçons levemente trolls, paredes texturizadas, quadros com paisagens típicas e - o horror, o horror - cardápio com preços manuscritos.

Encomende um gole de vodka para acalmar os ânimos. E parta para a segunda parte da experiência, que consiste em mediar uma conversa gastronômica entre seu amigo e o atendente. Deixe que seu acompanhante fale de enogastronomia, harmonização vertical e picolés de salmão enquanto, discretamente, o garçom entra para pegar o tacape. Desacordado, o foodie será arrastado pelos cabelos até o batente da porta. Acordará curado, em sua primeira manhã sem pensar em emulsões.

Último dos restaurantes bárbaros, a Polonesa também tem seus luxos: toalhas enviesadas sobre as mesas e palitos de dente à vontade. Lá não se fala de gastronomia. É o reino da comidaria, de molhos grossos (mas não grosseiros), porções para dividir e quentinhas ao fim. Um conceito - um quê, doutor? - que parece não ter mais lugar nestes tempos de culinária de chef. De fato, era o que aparentava quando chegamos, cedo, e encontramos o salão tristemente ocupado por uns poucos copacabanenses típicos.

Couvert ok, com fatias finas de pão e pasta de repolhinho. Como a fome era grande, rumamos para duas especialidades: estrogonofe e peixe com molho de raiz forte. Eis que chegam batatas coradas. Não era de vergonha, imagina. Gostosas que só, com beiradas quase queimadas, abriram meu já escancarado apetite. E toma peixe, com um consistente molho, levemente picante. Não era um pescado de primeiríssima, mas ao menos estava bem cozido. Provei também o estrogonofe, sem creme de leite, evidente. Filé macio, molho engrossado. Comidão.

Seríamos xingados em polonês se saíssemos de lá sem o suflê de chocolate. E assim fizemos. Pedimos o meio, que alimentaria toda uma viela do gueto de Varsóvia. O melhor da brincadeira é o que gruda no recipiente e vira uma casca crocante. De resto, falta chocolatência, na minha modesta opinião. Fomos embora a tempo de ver o salão lotado, com apenas um suave burburinho. Acho que estavam falando baixo para não serem descobertos. Pode pegar mal.

3 comentários:

Liv disse...

A grosseria dos garçons d'A Polonesa chega a ser divertida. E a maneira com que o suflê é servido - estilo bandejão de filme americano - garante risadas por um bom tempo. No mais, comida gostosa com preço honesto e que se danem os foodies!

Leïlah disse...

Você disse tudo quando falou em "trolls", Gustavo. Não podia ter sido mais acertado. Aquela constituição de touro sentado, sem pescoço, atarracadinhos, com narizes explodidos pros lados. Perfeito. Eu sempre me senti numa taberna por lá, poderia ser a taberna de "Noite", romance do Érico Veríssimo, com tintas surreais.
Você reparou nos cartazes de lugares típicos, algo que fica entre a exaltasamba da terra máter mítica perdida e a divulgação de pacotes turísticos bizarros, como os de um programa de turismo que passava na Bandeirantes nas manhãs de domingo, que meu bisavô (só ele) adorava, apresentado por um careca, que ficava atrás de um chroma de, adivinhe!, cartões postais hiperdimensionados com baixíssima resolução. Isso nos anos 80, claro.
A Polonesa está na minha história. Meus pais freqüentaram desde namoradinhos de Copacabana e o garçom Russo, não sempre muito bem compreendido, mas por mim muito querido, com sua troglodice amável, já estava lá, servindo-os. Fui com Daniel pela primeira vez lá em 1996, comemorar minha formatura....no COLÉGIO. Meu prato preferido é o frango com maçã, acompanhado das tais batatas divinas, levemente queimadas nas bordas, com fartura de salsa, hum, adoro. Eu recomendo o ravioli à moda também, totalmente anti-italiano, conchões enormes, super-amanteigados, coalhados de cebola em cima. Não passei muito bem dpeois, mas você sabe, meu estômago é xexelento.
Acho que você ia gostar também das panquecas de maçã flambada.
E o lema para A Polonesa agora é: COMIDÃO.

Eduardo Graca disse...

vc conseguiu: fiquei com saudade da Polonesa! e de quando morava ali ao lado. manda um suflê para mim, please? embala bem a quentinha e envia por Fedex, please!
estou adorando o blog
mas dá uma fome
beijos