26 de fevereiro de 2007

Em revista: Bar do Arnaudo



Não sou de vestir a camisa da culinária nacional. Gosto do que gosto, seja lá pedido com sotaque ou não. Comida boa não tem fronteira: é patrimônio da humanidade. Mesmo assim, tenho cá minhas paixões verde-e-amarelas, como acarajé crepitante (recomendo o do Toca do Siri), tapiocas sem puxa-puxa, como a que Teresa Corção do Navegador sabe preparar, farofa de dendê, bobó farto (com camarão fantasma não vale) e as bebidinhas sem-vergonha da Academia da Cachaça.

Ontem, num dia de céu azul-photoshop, fui parar no Bar do Arnaudo, em Santa Teresa. O portão fechado do Bistrô Solar - que restaurante faria a indelicadeza de recusar visitas num domingo como aquele? - e os preços indecentes do Espírito Santa, que voltou americanizado, me sopraram pra lá. Estávamos em busca de um quintalzinho mais agradável, mas me conformei com o lugar de nome esquisito - não é um bar e Arnaudo deve ser sacanagem do escrivão - e troquei a calmaria por aquele sururu no salão.

Sábia escolha. Nosso grupo de quatro pediu dois pratos: um grande (carne de sol com macaxeira macia acompanhada de farofa de abóbora laranja-radioativa e feijão de corda amanteigado) e um individual (carne-seca). Queijo coalho pontuava o sortimento, espalhado aqui e ali. Quem disse que existe fome no sertão? No nosso Cariri só tinha fartura. Pagamos pouco, comemos muito. E bem. Gordura controlada, temperinhos cuidadosos. Nada próximo da grosseria que se esconde no rótulo "típico" de alguns restaurantes da Feira de São Cristóvão.

Continuo sem achar a culinária nordestina muito vistosa. Pra mim, ela tem cor de terra e aparência de improviso. Afinal, é comida do povo, com as limitações da escassez de ingredientes. O que às vezes pode ser bom para as papilas. Sabe aquele papo dos esquimós terem dezenas de denominações para diferentes colorações da neve? Pois é. Só nordestino mesmo para tirar tantos sabores das mesmas carnes, abóboras e macaxeiras.

4 comentários:

Chacal disse...

Bar do Arnaudo é ótimo, só não dá pra abusar da manteiga de garrafa, dá piriri.

olivia disse...

gustavo, seu texto é tudo!
em tempo, 'abu' a comida do arnaudo.

HORDAK disse...

COMI FEITO UM PORCO. E SO DE LER ISSO JA FIQUEI COM FOME!

Pedro Mello e Souza disse...

Boa, Leitão. Cansei de ser espancado por um grupelho de xiitas por conta da patriotada na mesa. 100% contigo: o que é bom é bom e pronto. E o que a gente gosta é o que vale.